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Os sons eram ligeiramente abafados, mas, ainda assim, ele conseguia reconhecer os pios e gorjeios. Ele já adorava aqueles “Piu, piu, piu!” que ainda nem conhecia. E que ainda não entendia direito também... Apenas o suficiente para identificar o humor e a tonalidade.

A vida de um pequeno ovo de Tofu não é nada fácil. Ela é repleta de perigos. Pois é, tão cedo... Poucos chegam a eclodir. Muitos são devorados, roubados, esmagados bem antes... Antes de conseguirem quebrar a casca com o bico. Antes de poderem vislumbrar esse mundo tão magnífico quanto hostil com os próprios olhos. Antes de poderem esticar as asinhas frágeis e deixar a marca de seus três dedinhos no chão...

Aquele Tofuzinho, mais do que qualquer outro, mal podia esperar para descobrir o que estava acontecendo do lado de fora. Mas ele teria que ser muito paciente até a chegada do grande dia. Então, cada momento e cada sensação eram, para ele, uma oportunidade de dar asas à imaginação. Ele já tinha uma ideia bem precisa do que o aguardava. Será que se decepcionaria? Certamente não... Pois, embora cada novo dia representasse para ele a oportunidade de esboçar uma nova faceta do Mundo dos Doze em sua cabecinha (cujo cérebro era quase tão pequeno quando o de um Iop!), ele ainda tinha a certeza de que aquele lugar lhe reservava muitas surpresas. E ele estava certíssimo...

Naquele início de tarde, o passarinho havia acabado de acordar de uma longa soneca. Em sua fase de evolução atual, ele precisava de muito descanso. O corpinho dele estava trabalhando duro para transformá-lo em um Tofu valente e cheio de energia.

Normalmente, era o canto de seus pais que o tirava do mundo dos sonhos. Mas, daquela vez, o despertar havia sido muito confuso. Ele se sentia leve como uma pena, como se estivesse em um ambiente de gravidade zero. O coração dele parecia dar cambalhotas no peito. Ele não sabia dizer se era uma sensação agradável ou não... Desconcertante, sem dúvidas. Ele podia distinguir sombras através da casca fina feito papel. Elas eram diferentes das que costumava ver. Uma folha. Depois outra. E mais uma... Ele estava no topo de uma árvore. Estranho... O ninho em que seus pais o incubavam ficava a apenas alguns kametros do chão. Como ele sabia disso? O som das frutas maduras se espatifando no chão era um bom indicador. O Tofu já era um pequeno cientista, capaz de calcular distâncias e se localizar em um ambiente que, até o momento, nunca havia visto. Só ouvido. Os raios do sol começaram a atravessar a casca, a ponto de ofuscá-lo. Isso também não era normal... Os únicos momentos do dia em que a localização do ninho permitia essa exposição ao sol eram de manhã cedo e no fim da tarde. Estranho...

De repente, um grito. Ou, para ser mais exato, duas vozes gritando em uníssono. O medo e o desespero que expressavam era palpável. Os pais dele! Apesar da distância, ele conseguiu reconhecê-los. Mas... por que estavam tão longe? A menos que... fosse o Tofuzinho que tivesse se afastado deles?

“Friiiz!! Friiiiiiz! Friiiiiiiiiz!!”

Aquele bater de asas... Ele não o reconhecia. Era uma criatura muito menor que seus pais. Alguma coisa fria. Quase metálica.

“Tzzzz! Kkkk... Gzzzuuu... Tzzzz! Tziii! Friiik!”

Aqueles sons também eram novidade. E eram de gelar o sangue. Dentro do ovo, embora estivesse protegido do vento e das intempéries, o pequeno Tofu tremia da cabeça às patas. Apesar de ainda nem ter começado a viver, ele já era perfeitamente capaz de identificar uma situação de perigo.

A ave estava começando a entender. E a entrar em pânico também... Ele estava sendo separado de seus pais. Mas para quê? Por que ele? E, principalmente... por quem?? Ele podia sentir que seus raptores eram pequenos, mas numerosos. Havia muita agitação do lado de fora... Um enxame de alguma coisa. Um pequeno exército com uma coreografia muito bem ensaiada. Como o mecanismo de uma máquina. Infernal, sem nenhuma dúvida.

Bruscamente, o pequeno Tofu compreendeu que estava voando involuntariamente, e o pânico tomou conta dele. Estava a quantos kametros do chão? E a quantos mais de seus pais?? Ele sentia como se estivesse sufocando. Ele precisava de ar. DE AR! Mas era impossível! A menos que... O ovo? Não! Ainda era cedo! Cedo demais! No entanto... Não seria essa uma situação de extrema urgência? O Tofuzinho precisava confiar em seu instinto. Os pais dele não estavam lá para decidir em seu lugar. Ele só podia contar consigo mesmo... Não havia mais tempo para pensar: ele já estava se preparando para dar uma boa bicada na casca do ovo, sem saber ao certo o que faria depois, quando, de repente...

“PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIUUUUUUUUUUUUU!!”

Um novo grito. Esse, apesar de nunca tê-lo ouvido com essa intensidade, ele o reconheceria em qualquer lugar. O ovo estava tremendo. O pássaro estava sendo sacudido para todos os lados, arremessado contra as paredes frágeis. Felizmente, sua penugem já bem desenvolvida amortecia os golpes. Durante aquela confusão, o Tofuzinho chegou à conclusão que lhe parecia mais plausível: ele estava sendo disputado... Ele conseguia imaginar a batalha entre seu pai e seus agressores, lá, do lado de fora. A imagem que ele tinha de seu progenitor era a de um Tofu gordinho, com uma pança um tanto saliente, para ser sincero. Talvez ele tivesse se enganado desde o início... Agora, ele ainda o imaginava pequeno, mas robusto, de ombros largos e músculos bem definidos. Por outro lado, pela primeira vez desde que a consciência dele se despertou, sua imaginação o deixou na mão: o Tofu não conseguia dar forma àqueles que queriam lhe fazer mal. Os gritos agudos e o barulho metálico das asas lhe davam a certeza de que aquelas criaturas eram de outro mundo. A angústia provocada pela ideia de que talvez seu pai não saísse ileso do combate os tornava ainda mais sinistros...

Mais um grito. Pelo visto, todos os residentes das árvores vizinhas estavam se metendo na briga.

“HYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!”

A mãe dele. A mãe dele?? Mais uma vez, ele pensou que sua imaginação tinha lhe pregado uma peça. Na cabeça dele, ela era frágil e delicada. Mas o grito de guerreira cheia de determinação que ela deu ao avançar naqueles que ameaçavam o fruto de suas entranhas dizia o contrário...

Um combate impiedoso estava sendo travado. Depois, um silêncio brutal... E inércia. Quem havia ganhado? Ele estava entre as patas de quem agora? Seu coração estava a mil. Ele precisava saber. Será que conheceria sua família? Ou começaria a vida ao lado de criaturas que, ao que tudo indicava, não queriam o seu bem? O Tofuzinho tentou a sorte. Deu um chute discreto na parede do ovo. A luz se infiltrou com uma intensidade quase violenta. Ele não conseguia ver nada.

Depois, tudo ficou escuro. Preto.

Ah... Estava mais para marrom. Amarelo? Sim, amarelo escuro. E macio... Tão macio... O Tofu colocou o rosto na pequena abertura que havia acabado de criar, por onde entravam algumas penas com um cheiro reconfortante, familiar.... Ele bateu a cabeça em nada menos que o ventre materno. Um abraço emocionante, do qual também participava seu pai, cuja presença o pequeno Tofu podia sentir, acontecia do outro lado da casca do ovo.

Seus pais o abraçavam apertado. Eles haviam ganhado a partida... A primeira, que já anunciava a dureza da vida que ele tinha pela frente. Mas contra quem? Contra o quê? Isso Az só descobriria muito mais tarde...

Sem saber, Az, na mais tenra idade (difícil ser mais jovem que isso, não é mesmo?), já se vira confrontado com as cruéis Noxinas e a insaciável sede de poder do mestre delas, Nox. Será que o Xelor, graças às suas habilidades de mago do tempo, pressentiu o potencial do pequeno Tofu antes mesmo que ele saísse do ovo? Será que a ave já era uma incrível fonte de Wakfu? Nox teria, então, identificado o que faria dele, anos mais tarde, o inseparável companheiro e precioso aliado do Eliatrope mais famoso do Mundo dos Doze...