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Para inaugurar essa minissérie dedicada aos personagens emblemáticos da série WAKFU, vamos contar uma história que alguns de vocês já conhecem. Ela se passa a leste de Oma...

No coração de uma floresta tropical, tão cerrada que a luz do sol mal conseguia penetrar, ecoava em harmonia o barulho dos pássaros. Piados, grasnados, trilados, gorjeios... Então vieram os voos sucessivos e o farfalhar dos galhos. Alguma coisa se aproximava correndo. O que aparentava ser um amontoado de folhas se dispersou em uma dezena de borboletas borboleteantes. Os ramos que sobraram, pelados, também não tardaram a se espalhar — bichos-pau à procura de um novo abrigo. De repente, grandes folhas pinadas em forma de coração se afastaram e abriram passagem a Grugaloragran, exausto. Ele olhou para trás e voltou a correr.

*****

Por sorte, o dragão, na forma de um homem de idade, notou um enorme toco de árvore podre e oco. Com um pouco de esforço, ele se refugiou nele. A casca estalou. Ele teria dificuldade para sair, mas o esconderijo parecia perfeito. Só se viam dois olhos brancos trespassando a escuridão no orifício.

Passinhos rápidos e muito mais leves pararam nas proximidades. O perseguidor afastou os galhos, remexeu os arbustos e deu um suspiro.

“Meeeestre! Cadê vocêêê?”

Nem um ruído, fora o canto dos pássaros, que tinham voltado para seus poleiros. Adamai logo perdia a paciência quando as coisas pareciam não fazer sentido.

“Mestre Grugal, não entendo essa lição… O que é para eu aprender?”, queixou-se o dragãozinho branco. “Eu quero correr atrás de você para aprender a correr mais rápido, alcançar você para aprender a alcançar uma presa ou um inimigo, mas seria melhor até eu treinar com um Javalino logo, teria mais lógica! Se esconder desse jeito é... paté... quer dizer, não é nada pedagógico...”

Enquanto falava, ele ia revirando a vegetação sem grande convicção.

“Espero que você não tenha virado Tofu, você só pode se transformar em velho…”

  • “E você em criança, Adamai...”

Adamai se virou agitado. A voz estava muito próxima. Onde poderia estar seu mestre dragão? Apanhou um bastão e começou a cutucar as folhagens, expulsando sem querer uma mamãe javali, que grunhiu na cara dele com seu bafo fétido e fugiu com os três filhotinhos. O jovem dragão, que não tinha nem seis anos, jogou o bastão de raiva e o carbonizou no ar.

“Esse treinamento é uma porcaria! Pronto, falei!”

Diante dele, um toco de árvore se soltou do chão, revelando duas pernas. Surpreso, Adamai abriu fogo outra vez e o tronco se cobriu de fumaça. Recoberto de cinzas, Grugaloragran ostentava uma careta que já dizia tudo.

“Ah, claro! Entendi, mestre! Você queria testar meus reflexos! Foi isso?”

  • “Hm… Não, Adamai. Grugaloragran queria ensinar você a... brincar.

O velho dragão espanou os braços e os ombros para tirar a poeira escura e em seguida se dirigiu a um córrego.

“Você não é só um dragão, Adamai. Você também é uma criança”, disse ele, ajoelhando-se no riacho. “E, se um dia quiser deixar esta ilha e desbravar o mundo”, continuou Grugaloragran antes de enxaguar o rosto, “ você terá que aprender a virar criança.

Ele parou de repente.

“O que você tem aí na boca?”

  • “Mmm... Mm… Nada! Mm... Nada mesmo!”
  • “Cuspa esse Tofu, jovem aprendiz”, ordenou Grugaloragran com um tom indiferente, mas autoritário.
  • Ptu”, cuspiu o dragãozinho, antes de ver seu lanche sair voando. “Criança? Mas... qual é a vantagem? Crianças são pequenas e... fracas! Pois fique sabendo que eu já consigo me transformar em Scarafolha!”
  • “Você sabe muito para a sua idade, Adamai. Mas, às vezes, uma vida inteira não basta para descobrirmos quem somos realmente. Você não pode trabalhar e treinar o tempo todo.”

O velho dragão se levantou e estendeu o indicador para uma borboleta, que pousou delicadamente no dedo.

“Às vezes, já aprendemos só de observar, caminhar, relaxar e brincar. Toda ação pode ser uma lição, mas nem todas as ações são visíveis ou exteriores, Adamai. Também acontecem coisas no interior. Suas emoções também são muito importantes. Elas guiarão você por toda a sua vida.”

  • “Não estou entendendo nada disso e não quero me transformar em criança! Se você queria uma criança, deveria ter adotado meu irmão, não eu!

Adamai se transformou em Scarafolha e voou. O velho ergueu os olhos para vê-lo se afastar. Em seguida, observou o inseto no seu indicador. Ele abria as asas devagarinho, fechava-as delicadamente e depois recomeçava, passando da aparência de uma folha à de uma borboleta.

*****

No leste da ilha, nos limites da floresta, uma casinha empoleirada em uma árvore centenária dava para uma praia de areia fina. O pôr do sol e o ronronar das ondas rematavam o encantamento daquele lugar prodigioso. Com um leve zumbido, o Scarafolha atravessou a paisagem e entrou pela janela da cabana de madeira.

Lá dentro, desenhos coloridos com giz de cera recobriam as paredes: retratos de Grugaloragran, reproduções ingênuas de insetos, plantas e animais, de um cubo azulado e dragões. Mas o verdadeiro tesouro do refúgio de Adamai era inconfundível. Majestosamente aninhada na frente da janela que dava para a praia, a silhueta da casca do Dofus de Adamai e Yugo, incompleta mas identificável, se desenhava contra o pôr do sol. Três quartos do objeto tinham sido reconstituídos. Parecia um ovo cozido já sem a parte de cima.

De volta à forma de dragão, Adamai o contemplou. Seu rosto ficou mais sereno. Ele foi até a soleira da porta, pôs as garras para fora e começou a arranhar o tronco da árvore em um ponto já sem casca. Voltou com um pouco de seiva nas unhas. Abriu uma gaveta e tirou um bauzinho de madeira. Dentro dele, pedaços de casca de diversos tamanhos estavam espalhados. Apanhou o maior e o colocou sobre o Dofus, tentando encontrar o encaixe original. Quando julgou ter acertado, Adamai besuntou de seiva a parte que queria unir ao resto do ovo e baixou-a delicadamente, procurando tremer o mínimo possível. Em seguida, tirou a mão da relíquia com cuidado e admirou o resultado.

Um largo sorriso se esboçou em seu rosto. Pela janela, flutuando no ar, um Tofu castanho o observava em silêncio. Era Grugaloragran, orgulhoso de seu jovem aprendiz. Sem perceber, enquanto se ocupava daquele quebra-cabeças original, o dragãozinho tinha mudado de aparência.

Pela primeira vez em sua curta vida, Adamai era uma criança.