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Ele é famoso por seu espírito de Porkasso, sempre causando estrago, e por seu couro bastante resistente, utilizado na confecção de roupas de todo tipo (para quem não tem medo de feder a chiqueiro a kilokâmetros de distância). Mas você sabia que o Valili Real consegue farejar tanto impostores quanto trufas? É pelo menos o que se diz de geração em geração nas famílias de Valilis...

Dizem que, antigamente, na época em que ainda não eram tão explorados por sua carne muito apreciada na fabricação de linguiças cozidas, defumadas, com pimenta ou ainda com avelã, os Valilis passavam o dia disputando concursos, cada um mais excêntrico que o outro. Concurso de quem come mais rápido a maior quantidade de bolotas ecogumelos. Concurso de grunhido mais alto. Concurso de piadas (algumas bem difíceis, não vá pensando que focinho de Porkasso é tomada, hein!). Mas também e principalmente: o famoso concurso “Caça às Trufas”, que consiste em saber quem tem a maior delas.

Naquele dia festivo, centenas de Valilis estavam esperando quietinhos uns atrás dos outros, cada um segurando um precioso cogumelo firmemente entre os dentes. Uma fila interminável se estendia assim por todo o território do Javaleiro. Lá na ponta dela, estavam dois Valilis Agressivos, com cara séria e preocupada, de um lado e de outro de uma imponente balança. Com um aceno autoritário e um grunhido persuasivo, um deles convidou o primeiro Valili da fila a dar um passo à frente. O animal obedeceu timidamente e depositou sua trufa, que lhe dava tantas esperanças de vitória, em um dos pratos da balança. Enquanto o primeiro Valili Agressivo examinava atentamente a trufa, o segundo depositava as cargas de metal que permitiam definir o peso do cogumelo.

“Óinc óóóóinc óinc, óinnnnnc óóóinc óiiiiiinc!”

Os jurados balançaram a cabeça da esquerda para a direita, e o Valili competidor fez uma cara de profunda decepção. Logo em seguida, o participante atrás dele fez o mesmo, com uma trufa mais ou menos do mesmo tamanho. Veredito tão insatisfatório quanto o outro: nenhum troféu para esse Valili também este ano...

O dia inteiro, os Valilis se apresentaram uns após os outros, depositando a cada vez uma trufa na balança sob o olhar crítico dos dois Valilis Agressivos. Mas nenhum deles conseguiu bater o recorde do ano precedente.

Na fila de espera, só se ouviam comentários maldosos sobre o eterno ganhador dos anos anteriores.

“Hunf, de qualquer forma, não vamos nos iludir... Vai ser aquela marmelada de sempre: o Valili Grotoxik vai vencer o concurso! *

- Você tem razão! Todo ano, é a mesma coisa! Só porque ele dá uns amassos na Porcolina Dekuada, neta do presidente do júri!

- Não, mas você viu o tamanho da trufa dele este ano?

- Nem me fale... Tão grande quanto o traseiro daquele trapaceiro!

- MUUUAAAHAHAHAHAHAHAHAHA!!”

Será que a inveja estava ofuscando a boa-fé e objetividade dos competidores? Seja como for, todo mundo concordava em dizer que o vencedor já tinha sido escolhido. Valili Grotoxik, Valili solitário, só saía de casa uma vez por ano, para participar do concurso de “Caça às Trufas”. Todos sabiam da aversão que ele tinha por diversão e interação social. Além disso, o sujeito tinha uma capacidade extraordinária de meter o focinho nas maiores trufas do território. Por isso, era uma das figuras mais detestadas do clã dos Valilis.

De repente, um barulho surdo e rochoso, como se fosse proveniente de uma grande pedra rolando, pôs fim à gargalhada coletiva. E não era por menos: o tão odiado Valili Grotoxik estava empurrando sua trufa com a ponta das presas, fazendo-a rolar até a balança, sob os olhares ora atônitos ora desdenhosos de seus adversários.

“Viu, era exatamente o que eu estava dizendo...” – sussurrou um deles.

Os dois jurados pediram ajuda a outros Valilis para erguerem a trufa. Para realizar essa proeza, foi necessário juntar a força de quatro Valilis, que titubearam feito Pandawas saindo da taberna e quase acabaram sendo esmagados ou torcendo a pata sob o peso do cogumelo. No fim das contas, quando eles conseguiram depositá-lo em cima de um dos pratos, a balança literalmente desmoronou. Os Valilis ficaram boquiabertos e grunhiram em coro. Todos já haviam visto trufas de grande porte... Mas aquela ultrapassava tudo o que eles eram capazes de imaginar.

Um deles observava a cena com cara de desconfiança. Tinha caroço naquele angu... Pois é, ele já havia coletado inúmeras trufas desde que tinha vindo ao Mundo dos Doze! Mas nunca, nunquinha mesmo, havia visto nenhuma parecida com aquela. No entanto, não era o tamanho do cogumelo que o tinha deixado intrigado. Aaaah, não... Era mais o aspecto dele. E ele tinha a firme intenção de dar uma olhada mais de perto...

“Jurados, por favor! Embora o veredito pareça óbvio para todo mundo, eu gostaria de dar uma olhada nessa trufa, se me permitirem.

- Veja bem... Não há nada no regulamento que o proíba de fazer isso. Então pode se aproximar, se quiser!” – respondeu um dos jurados.

O Valili fez cara séria e foi em direção à trufa, que já estava atiçando a cobiça de todos os indivíduos presentes no local. Ele coçou o focinho com uma expressão pensativa, franzindo as sobrancelhas.

“Hmmm...”

Ele se aproximou um pouco mais e examinou a trufa sob um outro ângulo.

“Hmmm... Entendi...”

Abaixou-se para estudá-la por baixo. Depois ficou na ponta dos cascos para analisá-la por cima.

“Hmmm... Muito bem...”

Sem avisar, ele deu um leve golpe com as presas em uma zona cuidadosamente escolhida. Imediatamente, a trufa se despedaçou, desagregando-se em múltiplas trufas menores, sob o olhar espantado de todos os que estavam reunidos ali. Ela desabou feito um castelo de cartas, fazendo centenas de trufas de tamanho médio, parecidas com pedrinhas pequenas, rolarem até os cascos dos outros participantes.

“Ah! Era o que eu pensava!” – exclamou o Valili, que havia desmascarado a trapaça.

Um clamor de indignação elevou-se em meio à multidão. Valili Grotoxik havia colado uma grande quantidade de trufas umas nas outras para dar a ilusão de que se tratava de um enorme cogumelo. Ele não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha. Diante das centenas de olhos acusadores encarando-o, ele deu no pé, quer dizer, no casco e fugiu em direção à floresta, emitindo um grunhido estridente parecido com o de um Porkasso sendo perseguido.

O Valili que havia descoberto a artimanha de Valili Grotoxik e assim acabado com anos de enganação foi imediatamente proclamado rei dos Valilis. E, no entanto, a trufa dele não media nem metade de um focinho de Porcolina. Ou seja, ser um cara da pesada não necessariamente exige um tamanho colossal...

*diálogos traduzidos diretamente do idioma Valili para o dozeano.