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[CONTO] Sangue entre os escudos.

Por KAMORRUATO 24 Outubro 2018 - 22:13:57

—— Foi só um sonho, mãe. 

Enquanto o pequeno Nari deixava o fraco sol do outono aquecer seu rosto pela primeira vez, sua cabeça era invadida por uma estranha culpa. Seus olhos, ainda fechados, buscavam na escuridão reflexos do sonho que lhe havia tomado de assalto por uma noite inteira. Mas nada havia. 

Estava ali, deitado, peito sobressaltado, mãos trêmulas e pernas tão fracas que mal se arriscavam a dar o primeiro passo do dia. Tudo isso sem nenhuma resposta, apenas uma frase sequestrou sua cabeça: foi só um sonho, mãe.

Os olhos custaram a abrir. Quando abriram, um mar amarelo lhe deu bom dia. Já poderia ter se acostumado, mas acordar e ver uma plantação de trigo dourado cobrir todo horizonte era de uma beleza que olhos nenhum enjoariam. Aos poucos, o desespero do despertar foi substituído pela paisagem, pelo som dos passarinhos e dos irmãos mais velhos discutindo a mesa, do tilintar das panelas e o maravilhoso cheiro de pão quentinho.
Talvez a fome tenha o motivado mais do que o espírito para saltar da cama. Afinal, Feca lhe deu tudo para começar bem, não seria um sonho que mudaria tudo isso.

—— Não pense assim, meu irmão. Astrub não é esse canto de malucos que você está falando.
—— Aquele povo todo de arma na mão. Gente de todo tipo… Nari, tava dormindo?

O pequeno que descia as escadas carregado pelo cheiro do pão, foi sacudido pela voz grave do irmão mais velho. 

—— Dia… Eu… 
—— “Eu” nada, rapaz! O pai saiu e você está aqui criando raiz na cama?

Cada palavra vinda por Dalto era como martelo na bigorna. Faziam a cabeça de Nari sacudir por dentro e, antes de saber o motivo, já foi caminhando em direção a mesa da cozinha com “desculpas” fugindo pela boca. Parou ao lado do irmão que, ainda sentado, afanou os cabelos ruivos no menino.

—— Senta e come, cabeça de fagulha. O pai já deve estar recolhendo.

Nari puxou uma cadeira, catou uma Api e, na procura do pão pela mesa, viu seu irmão do meio entrar pela porta do quintal com uma muda de roupas e alguns livros.

—— Fagulha! Está mais vagabundo que antes.

Se, para Bernal, Nari não trazia novidade alguma; para Nari, seu irmão estava vertido de surpresas.
Antes de iniciar seus estudos em Bonta, Bernal era mais um em Emelka a vestir um macacão empoeirado. Agora, estava com um paletó azul e calças brancas demais para quem enfrentou uma viagem. Em meio esse pensamento, Dalto jogou sua cabeça gigante na frente de Nari e disse:

—— O paspalho ali, se vestiu assim para comer… Disse que é costume daquele povo.
—— Irmão, eu estou te escutando. Não vá fazendo anedotas com meus trajes.
—— Ane… O quê?
—— Anedota. Velho Dalto… São piadas.
—— E precisa falar assim!
—— Tenho que manter o rigor para não ser consumido por esse ambiente primitivo.
—— Arre! Se falar assim perto da mãe ou do pai, amasso sua cara engomada e tu volta andando para Astrub.

Realmente, Bernal havia mudado muito. Era cinco anos mais velho que Nari, mas parecia ser mais maduro que o próprio Dalto. Quando caminhou até a mesa, Nari imaginou que seu irmão estava flutuando. Não se ouvia nem o ranger do piso de madeira.

—— Pois bem. Nari e eu vamos para a feira, e tu —— falou Dalto —— vai arrancando esses panos, coloca um roupa de macho e vai ver se Oripi quer alguma coisa hoje.

Apesar da discussão, todos respeitavam Dalto. Era o irmão mais velho e, já há um bom tempo, o braço que sustentava a família.

--- TODO DIA UMA CENA NOVA---
Estou escrevendo e postar aqui é um incentivo. Obrigado por lerem e espero que me acompanhem nessa historinha.

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show, você escreve muito bem mano! ansioso pra ler mais xD

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Achei que vc fosse continuar :'(

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sad nao tem continuação... Acho que irei fazer um conto meu xD
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