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[HISTÓRIA] Sangue dos Belmont [+18]

Por Alterante 13 Agosto 2015 - 06:45:49

Oi! Eu resolvi colocar para o papel algumas ideias que surgiram na minha cabeça enquanto no ócio. Uma delas é de ambientar meu personagem, Altera Belmont no roleplay de Wakfu, que julgo ter muito potencial dentro de um jogo tão excitante de se jogar! Costumo escrever coisas nas horas vagas, muitas coisas. A grande parte delas vira um arquivo morto numa subpasta de uma subpasta do meu desktop infinito ou se torna algo desse tipo. Eu não espero reconhecimento nenhum, fiz isso para arquivar de alguma forma o que sou no Mundo dos Doze. Resolvi botar a cabeça para funcionar quando me apaixonei pelas classes dos meu personagens. Como não queria que eles se limitassem apenas a uma animação que solta habilidades e causam dano em um inimigo, eu resolvi dá-los uma alma com esses textos que faço nas horas vagas ou em qualquer momento chato do dia. Organizei o texto sem travessões para que a leitura pudesse ser mais prática, então não estranhem! Particularmente acho que a comunidade visada no roleplay de Efrim precisa ser menos tímida! Vamos dar aos nossos personagens aquilo que sempre sonhamos para eles, meu povo! Sem mais delongas, isso está sendo feito com muito carinho, espero que gostem e apreciem a leitura.


[24/09/2015]
O Capítulo II - Parte 1 saiu!

O tópico já foi atualizado com o capítulo dois da história. Espero que a leitura lhe entretenha!

Enquanto se recuperava de uma enorme briga, o ladrão Neil Sullivan desperta em um local estranho às suas memórias. Auxiliado por uma acolhedora eniripsia em sua casa, imagina estar seguro por apenas alguns minutos até ser surpreendido com a visita de dois estranhos muito familiares. A incerteza orbita a sua mente no momento em que o seu passado retorna bem diante de seus olhos. Esqueletos já enterrados serão trazidos a tona e fantasmas voltarão a atormentá-lo em breve...


Minhas histórias costumam ser bem pé no chão mesmo, então não ignorem o aviso deixado no tópico. Essa história contém violência, sangue e tripas (eca). Estejam avisados de que se trata de uma espécie de fanfic no estilo dark-fantasy, essa é a melhor comparação possível.


  • Tentarei postar semanalmente. Como não sou bom com prazos (nem minha vida com regras), vou fazer de tudo para que até a meia-noite do sexto dia o conteúdo esteja pronto e revisado para ser postado na atualização da mensagem. Horários também serão aleatórios dentro desse prazo. Múltiplos capítulos também. Enfim, tudo na sorte!

  • Sugestões no texto e dúvidas sobre a história são SEMPRE bem-vindas. Contudo meu intuito em postar isso é de receber críticas, daquelas construtivas que vocês já devem conhecer. Priorizo primeiro os erros para depois melhorar nos acertos. Ilustrações ou quaisquer outras contribuições são muito apreciadas! Se algum personagem o cativar ou mesmo o âmbito em que se passa a história e você resolver colocar isso na ponta da sua caneta bic, fico muito feliz em postar a sua arte com os devidos créditos em caixa alta aqui!

  • Eu sou um cara que aprecia muito o roleplay, independente do sexo, classe ou origem do seu personagem. Quero muito conhecer a comunidade tímida de roleplay do Efrim que citei acima. Gosto da interpretação e estou aberto a convites por qualquer grupo, que isso sirva como forma de anúncio desse tipo (vamos aproveitar, né?).




Música Tema da História
(Recomendo abrir em uma nova guia)

O Mundo dos Doze vivia tranquilo, mas não até o nascimento de um pequeno ecaflip. Depois desse dia, tudo continuou a ser exatamente como era. Surpreso? O conforto das muralhas talvez o tenha tirado a astúcia do seu sarcasmo, leitor. Aceito o fato de que o que eu escrevo não vá se tornar um novo arquivo na Biblioteca das Nações ou um formador de arquivistas, mas com certeza isso o fará repensar o real significado de justiça. Eu já não posso mais andar com essa perna, queria eu correr de meus pesadelos desde aquele dia em diante. Eu não parei de vivê-los, pois hoje eles se tornaram palavras em um pedaço de papel que me tortura dia após dia. Pode chamar isto de diário, anotações, memórias póstumas de um fantasma que eu não sou, um conto, que seja. Contarei o que os civilizados não conhecem do Clã Riktus e de suas tênues relações com o mundo além do mar de seus redutos portuários. Falarei dos feitos de um felino ambicioso e do que a vingança pode levar um coração a cometer. Do quão quebradiço é o vidro dos governos e de suas alianças, e muito além. Meu diário pode ser longo, mas se você leu até aqui, não se preocupe, pois a dúvida é o princípio da sabedoria.


[Prólogo - Lágrimas no Concreto]


‘’ Qual o seu nome, Pequeno Enric? ’’

O gotejar nas paredes do apertado lugar e o circuito falho na luminária de teto criavam a ambientação serena do silêncio. O homem perguntava, mas não recebia nada mais que um suspiro de quem já tinha aceitado o seu destino antes mesmo de conhecê-lo. Sua voz, embora ameaçadora e despreocupada, tirava do subliminar o seu histórico de já ter matado em interrogatório antes, e o nervosismo nos lábios dava a crer que o faria novamente naquela noite. Os outros dois vigiavam a porta para qualquer surgimento inconveniente. Não queriam dar a crer aos demais o que estavam fazendo. Aquilo era tentador demais. O preso não resmungava, coiceava ou urrava com aquela mordaça na boca que antes só blefava. O silêncio arrastava-se. Todos ali, com exceção do prisioneiro, esperavam que palavras desesperadas enchessem o ar em pedidos de piedade e confissão verdadeira como sempre acontecia com aquele torturador tão hábil.

O estrondo de um punho pesado contra a já fraca cara do preso assustam até mesmo os dois vigilantes. Ambos olhavam através de suas máscaras características para o estrago, em seguida fitando a manopla de salgueiro fundido em talhos de ferro. O sangue gotejava pelas frestas até a roupa preta do torturador, e ali sumia. Um deles quase deixa escapar um gaguejo, mas resolve falar.

‘’ É preciso de tudo isso mesmo, Nassung? Nós pod... ‘’

O homem é interrompido por um urro que veio depois do golpe certeiro. Nassung estava em um ataque de fúria incessante contra o chão. Com apenas uma mão ele golpeava o piso a frente do prisioneiro vez após vez em uma velocidade incansável. O som que era resultado disso era o mais assustador. Era como um grande martelo de abade sendo testado na forja por um bwork ferreiro. Fez isso por mais vezes que os dois puderam contar, já que não se sabia se o prisioneiro havia sido morto, posto para dormir ou algo entre os dois termos. A cada golpe as suas memórias frustradas pareciam escorrer de seu corpo em detrimento da fúria.

‘’ Eu quero mais. Quero aproveitar o momento em que ele cai à minha frente enquanto tenho a saúde para fazê-lo. Quero tirar o sopro de vida dele como um canudo na água benta ‘’

Dizendo isso, Nassung se levantou e fechou a mão ensanguentada ao redor do pescoço do azarado prisioneiro. Levantou-o a pouco mais de trinta centímetros do chão. As pedras na parede do lugar rasgavam suas costas na dolorosa subida, liberando o agonizado gemido sem forças que o dominador queria ouvir por longos segundos. Seu punho fechava completamente no esguio pescoço. Apertou-o firmemente até sufocar a vítima numa tentativa de falar algo. A impaciência era evidente no penetrante olhar mortal que o torturador usava para invadir até os mais inimagináveis segredos do acorrentado do dia. Perguntou mais uma vez, mais lento e curioso.

‘’ Qual é o seu nome?! ‘’

Sua visão estava ficando embaçada. Era mais uma vítima de Nassung que seria despejada como lixo no fim da vala. A silhueta negra que tapava a luz da lua na janela de grades balançava a cabeça. Era um pequeno animal, inocente, frio e observador, um miaw no mínimo diferente dos demais. Seus olho esquerdo era fechado, o que se explicava por uma cicatriz horizontal. O olho único do felino abriam-se enquanto os do prisioneiro se fechavam. O verde penetrante de seu wakfu poderia ser sentido mesmo pelo mais ignorante e atrapalhado aventureiro. Era forte a energia, e mais forte ainda o seu elo com os outros seres que compartilhavam dela. Ronronava para a cena, como se tivesse plena consciência do que ali se passava. Nassung sacava uma adaga da bota rapidamente e arremessava-a contra a grade. O seu treinamento a fazia retornar no choque propositalmente mau dado como um bumerangue. A frustração era visível em seus olhos ao recuperar a lâmina. Tinha certeza de que algo estava observando a ele e seus homens, mas não havia nada ali, talvez nunca tivesse existido. Sua postura ameaçadora sumia na preocupação em seu olhar.


[Capítulo I - A estranheza dos olhos]


A bebedeira na taverna se estendia até o meio da calada da noite. Do lado de fora não se ouvia nada senão o coaxar dos sapos à beira do pequeno córrego que era cortado pela ponte de Astrub. Embora o imóvel antigo fosse afastado da cidade, visitantes das fronteiras faziam questão de beber o famoso licor de trigo preparado no moinho particular do lugar. A música alta e o frenético garçom não eram suficientes para disfarçar o odor de álcool que parecia impregnar em todas as paredes. Uma briga de bêbados, uma dama cobiçada e um mercador viajante. A noite de ouro da Farrou’Piulha. Tudo estava completamente organizado em seu lugar naquela usual e caótica bagunça que o álcool costumava instaurar naqueles picos de clientela.

Um bêbado tinha a sua coxa de valili tomada por um homem robusto que passeava entre as mesas até se sentar na mesa mais afastada do balcão e da porta. Pôs seu par de botas encima da cadeira ao lado e jogou a algibeira que trazia junto ao cinto encima da mesa. Era possível escutar as kamas sendo remexidas dentro do recipiente de couro, aquilo era simplesmente uma tentação até ao mais paciente ladrão. Embora sua presença fosse tão fútil quanto qualquer outra razão para tirar do sério os eufóricos aldeões, algo naquele lugar mudaria em breve. Enquanto esperava pela cerveja local, Sullivan tratava de checar se as pedras preciosas ainda estavam envoltas em seu pescoço. O roubo o tinha recompensado com pelo menos seis colares muito diferentes, quase que como se pertencessem cada um a um diplomata do Mundo dos Doze. Eram pedras relativamente caras feitas a partir da gema bruta e dos rudimentos mais finos de tarúdio em suas cápsulas. Qualquer joalheiro de esquina apreciaria o trabalho artesanal excepcional feito ali.

A luz do local parecia cada vez mais fraca. Talvez faltasse óleo para a combustão do dispositivo que parecia de um modelo novo. O que mais se destacava entre tudo era aquela lâmpada. Parecia um presente de uma terra distante para o dono do recinto, algo como um artefato xelor caríssimo. Sullivan parecia se perder admirando a peça em forma de pêndulo. A luz, tão chamativa e envolvente, quase entorpecente para seus desejos ladinos. Não adiantava o que cobiçasse, nada seria tão recompensador quanto o risco de se ter o impossível.

‘’Melhor parar nos colares, as lâmpadas não saem tão fácil do teto como você pensa’’.

A voz soava próximo de Sullivan, que imediatamente se assustava mas logo notava seu tutor, Feldaer, encostado com uma cadeira ao lado oposto da mesa. Era um homem parrudo e de voz grave. Tinha seus cinquenta anos, um professor de mente e corpo estereotipadas. Sullivan o fitava apenas com os olhos por alguns segundos, mas ainda mantinha a cabeça na direção da lâmpada.

‘’Barret pensou o mesmo que você ao olhar para uma lâmpada dessas, embora daquela vez esta não fosse tão cara’’ — Alertou o tutor.

‘’ Eu não me imagino com uma dessas, seria imprudente dizer que eu poderia carregar uma com tanta bagagem’’. Rebateu Sullivan com quase a mesma velocidade que a pergunta foi feita.

Um breve silêncio vigiava a conversa, sendo interrompido quando Feldaer agarra a bolsa de kamas de Sullivan e começa a fazer o serviço exímio de anos de roubos e furtos : a contabilidade. Suas mãos eram tão rápidas em separar as dezenas das unidades que até mesmo a elite do clã se impressionava com tamanho dom. Devorador de Kamas não foi um apelido dado a ele apenas pela contagem, mas pelo seu passado repleto de proezas nas terras urbanas da velha Astrub. Sullivan permanecia imóvel, desta vez observando uma garçonete ao longe. Não que pela sua beleza, mas pelo estranho artefato que adornava seu anelar direito. Por um momento achou que estivesse trabalhando demais para notar tantas peculiaridades em um lugar que entrou a tão pouco tempo e, como qualquer ladrão veterano, analisar como poderia sair dali com aquilo sem ser percebido.

A contagem de kamas para subitamente quando Feldaer nota uma discrepância nas moedas. Olha por um longo período para o bloco de notas que acompanhava sua tarefa e as douradas na mesa.

‘’ Não é o suficiente, Sullivan, tem certeza que o fornecedor dos colares vai confirmar mesmo o preço que me falou por esses daí? ‘’. — Questionou Feldaer com um ar de desapontamento.

‘’ Imaginei que fosse dizer isso ‘’. Retrucou.

‘’ O que está acontecendo, Sullivan? Você não tinha esse histórico tão ruim de roubos, pelo contrário, era exemplar no clã. ‘’. — Feldaer levantava um pouco a voz para falar.

Sullivan permanecia calado. Não mais olhava para a luz, para o anel atípico da garçonete ao para qualquer outro atrativo que fizesse seu ego pulsar. Detestava estar errado, e não entendia ainda o que aconteceu com a sua reputação tão impecável. O roubo aos Corvallies provavelmente seria a sua última tarefa antes de se aposentar de vez. Apesar de sua idade aproximar-se da de Feldaer, aquilo não o fazia ignorar que logo teria que parar. Seu corpo não aguentava mais o mesmo de vinte anos atrás ou mesmo no seu primeiro dia de campo como um Riktus.

‘’ Tudo bem, não responda. Não vai ser a primeira vez, certo? ‘’. — Disse Feldaer, sarcástico.

Vendo que não mais lhe restava nada a ser feito ali, o tutor empurrou a cadeira para trás, juntou as kamas da mesa e se virou para a saída. Antes de ir em definitivo, virou-se para a mesa do canto e olhou nos olhos cansados do que um dia foi seu aprendiz, mas que agora era um ladrão equiparável.

‘’ O clã quer aquela criança ambiciosa de volta, Sullivan, não a que falha com as taxas semanais. ‘’ — Lamentou. ‘’ Temo que a elite vá ficar sabendo de mais essa, eu sinto muito ‘’.

Feldaer não se sentia bem em fazer aquilo, mas seu dever pelo clã era tão grande quanto a amizade por seu amigo, e aquilo o faria ter a plena consciência do ato em qualquer outra ocasião. Sullivan não esboçava mais reação. Sua bebida era dada à mesa só para que este investisse o resto da noite e o raiar do dia se entorpecendo de álcool. A sua queda estava próxima, ele podia sentir. O que mais lhe incomodava era saber que aquilo tudo acabaria, que não iria haver um ‘’mais’’, uma perpetuação do que ele queria realmente ser na vida. Um homem falho, de atos falhos e de uma carreira falha, era uma boa combinação para uma morte por inanição ou tortura em qualquer terra de bons samaritanos.

[ . . . ]

A bebida não entrava mais em seu organismo, estava cheio até o topo. Um barril de cerveja parado e falido. Estava sentado à sarjeta da taverna. A rua escura não o dava medo, pois vivia nelas por toda a sua vida. Criou coragem para tirar do cinto um broche de cobre que sempre trazia consigo. Ele abria a sua tampa para cima como um relógio de bolso, mostrando a sua identificação como um indicado a elite do clã. Observava por bons segundos aquilo, até finalmente em um disparo de raiva arremessar o artefato dentro do córrego escuro da noite. Limpava o rosto da bebedeira e tentava cambalear até o seu dragoperu nos estábulos do lugar. Tinha o repousado ali ilegalmente, mas desde que ninguém soubesse da falcatrua, Sullivan estava bem.

Tamanha foi a sua surpresa quando percebeu que não mais o animal estava ali, sumira sem deixar sequer pegadas de sua longa trilha até o afastado lugar. Foi com um golpe nas pernas que Sullivan teve sua queda contra o arenoso e duro terreno. Tentou sacar a sua adaga, mas a agilidade de um sóbrio era infinitamente maior que a sua. Só conseguia ver silhuetas embaçadas na noite, estavam contra a luz do luar. Eram pelo menos três, talvez quatro daqueles agressores. Pisoteavam seu corpo com tamanha fúria e covardia que nem mesmo o mais sádico dos srams aguentaria assistir a cena sem intervir em auxílio do bêbado largado. A agressão era silenciosa senão pelo som das pancadas e possíveis costelas sendo quebradas, ninguém se pronunciava. Pareciam já saberem o que estavam fazendo no momento que chegaram ali.

Foi com um golpe certeiro da vara de madeira de um dos três que Sullivan se deu por nocaute e apagou. Estava a mercê do destino e da sorte. Sentia ainda após breves segundos as suas pernas serem atingidas por violentas pauladas paralelas a socos no abdômen. Ele havia desistido de viver. Suas costas eram tocadas por mãos macias que mais pareciam mágicas. Ainda não podia discernir o que era, humano ou animal, mas aquele tratamento estava definitivamente aliviando a dor do despertar. Abria os olhos pela primeira vez naquela sua nova vida que os próprios deuses o deram chance de viver. Estava confuso, não entendia o motivo de ter sido poupado pelos três homens, mas pior que isso, não sabia onde estava e se aquilo iria se repetir neste momento como alguma tortura contratada por um dos muitos homens influentes que já roubara.

As mesas, os fracos coloridos e alambiques esvoaçantes o chamavam a atenção. Definitivamente estava vivo. Uma moça curava das suas feridas e, a medida que tentasse se mover, ela o empurrava para baixo na altura do pescoço. Estava fraco e sem nenhuma frase feita para perguntar onde estava ou o que estava acontecendo. Virou-se para a moça de lado e fitou seus olhos azuis e extremamente bonitos. Era uma eniripsia ruiva e alta, vestia uma espécie de jaleco-avental branco e rosado em alguns pontos.

‘’ Deite-se, não queremos que quebre mais do que já quebrou aqui atrás ‘’ — Alertou a moça em uma voz calma e serena que induzia-o a obedecer imediatamente.

‘’ Onde estou? Quem são vocês? ‘’ — Perguntava em um pigarro.

‘’ Você está na minha casa e na de meu irmão. Não há motivo para se preocupar agora ‘’ — Explicou a moça tentando tranquilizar o paciente.

‘’ Minha cabeça dói como o diabo ‘’ — Sullivan apertava a sua testa numa tentativa ilógica de diminuir a dor da enxaqueca.

‘’ Você parece ter bebido até cair e se machucar bem feio. Encontramos você boiando na margem do rio da fronteira com Bonta enquanto colhíamos excêntricas ‘’. — A moça continuava concentrada em terminar as ligaduras do ferimento enquanto conversava.

‘’ Eu não consigo me lembrar bem do que aconteceu, talvez um valili tenha me pego bêbado ‘’. — Tentava usar suas poucas forças para terminar a frase e pigarrear no fim.

‘’ Um valili?! ‘’ — A moça ria em um tom inesperado de deboche.

Sullivan era maduro o suficiente para entender a risada da moça, mas fraco o suficiente para também tentar questionar do que ria. Tentou se sentar na cama ao término das ligaduras. A moça, desta vez, permitia que ele o fizesse e até passava a o ajudar na tão simples mas tão desafiadora tarefa. Sentia suas costelas doerem enquanto as forçava a trabalhar com força. Ao fim, seu abdômen todo estava enfaixado e com manchas de sangue a mostra por debaixo do tecido branco. Tinha a chance de olhar o local por inteiro pela primeira vez. Uma janela aberta e com borboletas entrando e saindo vez após vez, algumas até pousavam próximas dos químicos que a moça estocava numa mesa próxima aos mesmos alambiques que viu anteriormente. A iluminação era naturalmente boa com a luz do dia, e nada de valor parecia o chamar atenção ali, afinal, não conseguia pensar em roubar quem tanto o ajudou, seria cruel demais até para o pior dos Riktus.

‘’ Não posso pagar nada agora pelo serviço, lamento ‘’. — Desculpou-se Sullivan.

‘’ Mas que desfeita! Não queremos o seu dinheiro, apenas a sua saúde. Somos eniripsias, não mercenários. ‘’ — A moça ria e caçoava do dito por Sullivan.

A porta batia três vezes, o que alertava a jovem para a possível chegada de seu irmão do campo de colheita. Agarrava as chaves encima de um balcão próximo e andava para as escadas que davam acesso ao primeiro andar da casa.

‘’ Irei atender o meu irmão, fique aí! ‘’ — Dizia em sua pressa.

A moça girava a chave na porta que se abria. Para a sua surpresa, dois homens estavam a esperando logo ali. Ambos trajavam roupas de couros típicas de aldeões locais, embora parecessem forasteiros ao invés de pacatos astrubianos. O da frente tomava a voz ao notar a surpresa da moça na porta.

‘’ Bom dia, estamos procurando por um homem, se puder nos dar uma informação sobre o paradeiro dele ficaríamos muito satisfeitos ‘’ — Impostava sua voz para falar como uma autoridade que parecia ser.

‘’ Que tipo de homem? ‘’ — Perguntava a moça, recebendo imediatamente uma foto confusa deste, como um retrato falado mal feito.

Tentou esforçar-se para lembrar de alguém parecido, mas ninguém vinha a sua mente. De uma forma muito alucinante aquele homem se parecia com qualquer padeiro da esquina ou sapateiro, era um rosto bem comum. Dali de cima, olhando pela janela e de joelhas com a cama, Sullivan observava toda a cena e reconhecia imediatamente os homens. Estava surpreso em vê-los ali e sabia do que eram capazes de fazer as pessoas sumirem. Temeu em colocar aquela família solidária em risco e tratou de buscar esconderijo. Na sua tentativa de se levantar, caiu no chão com a perna dolorida como a de um osso quebrado. O barulho da madeira ressoou no primeiro andar como um alarme, o que fez com que os homens pedissem licença a moça com o braço e entrassem sem ao menos serem autorizados.

‘’ Ei! Não podem entrar na minha casa assim, eu vou chamar os guardas! ‘’ — Esbravejou a pequena eniripsia em ameaça.

Um dos homens acena com a cabeça para o outro e este sobe em disparada as escadas enquanto segurava algo na altura do cinto. Abriu a porta do laboratório, a única no segundo andar senão a do banheiro. Seus olhos arregalavam-se e tamanho foi seu choque quando viu aquela cena.

[Capítulo II - Estrada de Ferro] - Parte 1


A janela rangia, pois fora deixada aberta pela curandeira para que o vento natural invadisse o lugar ao clarear vespertino. O relógio se aproximava do meio dia quando os homens adentraram o recinto. A porta escancarou-se na entrada súbita dos invasores, instaurando o alerta por toda a casa. Um miaw saia em disparada pelo corredor com o susto, se perdendo nas ruas próximas da casa da jovem eniripsia. Quando o barulho cessou, o silêncio no andar de cima tornou os olhares apreensivos. A eniripsia subia degrau por degrau em meio a livros derrubados e terra acumulada na madeira, provavelmente das botas sujas dos indesejados visitantes.

Virou no corredor dos quartos e fitou paralisada os dois homens na porta. O de trás, mais baixo, parecia vigiar a guarda sem arma alguma, mas dali conseguia enxergar o mais singelo movimento de respiração da apreensiva moça. O que tomava a frente mirava com uma Sarracena, um revólver ornamentado em prata, típico de certos escalões de gangues aspirantes aos clãs Riktus por todo o Mundo dos Doze.

‘’ Parem com isso! Isso é uma casa, não um campo de tiro! ‘’ — Berrou a corajosa eniripsia, um pouco arrependida de suas palavras depois que elas escaparam de sua boca.

Os dois não pareciam se mover, estavam fixos na tarefa que tinha os enviado até ali. Sullivan estava sentado e com a perna machucada, mas havia pego de seus trajes no cabide ao lado o isqueiro que usaria naquela situação. Era preto e velho, mas parecia ter um valor para o ladino.

‘’ Solte ou vou ter que quebrar as regras por aqui! ‘’ — Ameaçou o homem do revólver.

Sullivan penetrava no fundo de seus olhos, sabia que ele não iria hesitar em atirar caso fosse necessário. Olhou para o relógio e para o homem de forma tão rápida que o próprio homem que o acompanhava arregalou os olhos com a cena.

‘’ Você que solte. De nós dois você está pior! ‘’ — Disse Sullivan.

O homem rosnou e cerrou os dentes enquanto dava um passa com a arma apontada para Sullivan, contudo, algo o fez parar. Tinha pisado em algo crocante e com um odor característico. Era uma substância vermelha, muito parecida com farinha, embora enrijecida como gelo molhado.

‘’ Vamos ver o que chega primeiro no outro, seu isqueiro ou a minha bala. ‘’ — Ameaçou o homem ao destravar a arma para atirar no puxar imediato do gatilho.

O orgulho e a confiança de Sullivan em suas próprias habilidades eram a razão de ele estar vivo nesse ramo a tantos anos, e não seria naquele momento que perderia esses valores. O pó vermelho de nicíra, extraído do suco fundamental do sangue de qualquer kralamor. A substância era apenas um ingrediente culinário picante, mas quando inflamado se tornava um potente agente corrosivo no ar capaz de causar sérios danos aos olhos humanos, muitas vezes irreversíveis. Os serviços de campo dos Riktus costumavam prestar uso ao extrato de nicíra, embora este fosse conseguido ilegalmente na sua forma adulterada, que se afastava do cunho gastronômico para se tornar algo de uso unicamente militar.

‘’ Vai me matar de qualquer jeito. ‘’ — Concluiu Sullivan.

‘’ Tem razão. Mas você pode fazer isso ser mais rápido. ‘’ — Rebateu quase que imediatamente.

O capanga que vigiava a porta estava vestido com um ameaçador sobretudo, o que disfarçava a sua real etnia e raça. Não existiam adornos ou cores, só um par de olhos escondidos em uma espécie de óculos numa aparência imóvel bizarra. Talvez ele fosse o real mandante de todo aquele circo, ou talvez apenas um acompanhante de segurança do real assassino. Sullivan teria que pela primeira vez depender da sorte, e então o isqueiro era riscado, alertando o homem para a fagulha que era jogada na direção de seus pés. Jogou-se na direção da cama com uma agilidade impressionante para a idade, escondendo toda a sua face do potente veneno ou do provável tiro que levaria caso tudo aquilo tivesse sido em vão.

Numa súbita coronhada dada pelas costas, a arma ia ao chão junto com o corpo sem forças do ameaçador. O Som agudo da nicíria causava tamanho susto na eniripsia que a fazia correr imediatamente para o andar de baixo com medo do pior, ignorando qualquer tipo de repreensão do riktus do lado de fora. Sullivan respirou fundo próximo a um lençol contra a parede. Esperava não ter absorvido o veneno e esperou o tempo necessário até lentamente levantar-se para observar a cena. A nicíra parecia ter tomado conta do quarto, criando uma fumaça bastante opaca que variava nas cores rosa e vermelho. Espantou-se com o que viu em seguida. No meio da fumaça o homem de sobretudo estava de pé ao lado do corpo desfalecido do seu companheiro. Na sua mão direita, um porrete com bandagens e pregos em sua volta. A parte que cobria a sua face estava voltada para trás com um natural capuz retrátil, o que revelava a sua assustadora máscara metálica. Encarava fixamente Sullivan enquanto respirava como um bwork em um lugar fechado. Após alguns segundos de plena observação, Sullivan decidiu se manifestar.

‘’ Quem é você? ‘’ — Perguntou.

O homem continuou a encará-lo por pelo menos meio minuto até subitamente caminhar até uma cabeceira e lá deixar sua arma e tirar o seu sobretudo, revelando sua forma física impecável de um guerreiro nato. Sem o sobretudo era possível ver claramente o seu colete de couro apertado contra a sua musculatura. Era um homem branco e de muitas cicatrizes pelo corpo, principalmente no braço esquerdo. A calça era comum e as botas tão triviais quanto. Suas luvas, contudo, se estendiam até próximas do cotovelo, revelando serem verdadeiras manoplas de couro usadas por ele no dia a dia, a finalidade destas era um mistério.

‘’ Achei que desde o roubo do cofre da Guilda do Sol não fôssemos mais nos ver, Suli. ‘’ — Dizia a saudosa voz grossa através da máscara.

‘’ O quê?! ‘’ — Sullivan ficou surpreso. ‘’ Não me lembro de você. Você é um riktus? ‘’ — Perguntou.

O homem riu em um pigarro que revelava a idade mais avançada que a de Sullivan. Começou a tirar sua máscara desparafusando pelo menos seis encaixes ao redor da nuca e do topo do crânio. A máscara era presa com ar compresso que, quando solta, liberava uma pequena carga que revelava o rosto de cabelos brancos, lisos e longos na face cicatrizada e enrugada do antigo companheiro.

‘’ Balthazar... ‘’ — Sullivan abriu um meio sorriso.

‘’ Eu iria lhe extorquir só pela dificuldade que foi montar um plano bom o suficiente para chegar até aqui ‘’ — Disse enquanto se aproximava de uma cadeira próxima, apoiando as mãos nos joelhos para se sentar, tendo um alívio pelo descanso.

‘’ Balthazar, se veio aqui pelo dinheiro, essa não é uma boa hora, eu... ‘’ — Sullivan foi interrompido antes que pudesse explicar o acontecido.

‘’ Eu não vim até aqui pelo dinheiro, Suli, e essa dívida fica pra depois. ‘’ — Explicava com a voz velha e cansada, não mais escondida pela tecnologia da máscara steamer.

Algo parecia incomodar Sullivan cada vez mais. Era visível uma cicatriz muito grande de queimadura atrás do ombro direito do antigo colega de profissão. Algo muito característico e fundamental nos riktus de elite e que não poderia ser apagado de forma alguma do corpo de seu portador : a tatuagem.

‘’ É uma longa história. Um barril de pólvora de décadas que acabou de explodir dentro daquelas cavernas, Suli.‘’ — Disse Balthazar, percebendo que a sua queimadura já atraía olhares. Ao final da fala pigarrou.

‘’ Independente do que tenha acontecido, eu quero que explique esse homem inconsciente no chão para a dona da casa. ‘’ — Sullivan quase interrompia Balthazar, apontando para o corpo caído.

‘’ O nome dele era Jázias. Se não for por ele eu não teria pego essa viagem de captura. ‘’ — Dizia enquanto fitava o corpo com as mãos no queixo.

Em Sullivan uma feição de total surpresa decorava o seus gestos. Apenas agora se deu por conta do que realmente estava acontecendo ali, mas não o real motivo. Suas mãos ficaram frias, mas cerrou os punhos com força para o sangue voltar a correr nelas. Olhou para Balthazar como se esperasse a sua explicação, e ele a diria.

‘’ Um conhecido seu quer você morto. ‘’ — Disse com os olhos cansados encarando Sullivan com grande seriedade.



[...]
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Valeu a pena a minha espera por mais conteúdo antes de começar a ler, antes eu não iria ter a experiencia dessa leitura com música! biggrin

Então.... sobre o aviso de sangue e tripas... eu meio que ignorei mesmo sabendo que esse estilo não é lá do meu gosto... Mas não me arrependi!

Eu ADORO esse estilo de descrição detalhado em cada cenário, e muito mais quando é escrito de forma inteligente e não exagerado como senti no Prólogo e no Capítulo 1! Sinceramente até invejo toda essa forma de apresentação e vocabulário, mas simplesmente não faço por onde ^^ Eu não tenho costume nenhum de escrever e leio muito pouco, então quero deixar claro minha opinião que acho muito lindo e aprecio DEMAIS esse nível de obra consequente desses arquivos mortos das subpastas das subpastas ;D

Mesmo eu não curtindo esse estilo dark, estou ansioso pela continuação e ver como tudo vai se ligar, porque a trama está muito boa!
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GraceMalley|2015-09-08 23:31:42
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Valeu a pena a minha espera por mais conteúdo antes de começar a ler, antes eu não iria ter a experiencia dessa leitura com música! biggrin

Então.... sobre o aviso de sangue e tripas... eu meio que ignorei mesmo sabendo que esse estilo não é lá do meu gosto... Mas não me arrependi!

Eu ADORO esse estilo de descrição detalhado em cada cenário, e muito mais quando é escrito de forma inteligente e não exagerado como senti no Prólogo e no Capítulo 1! Sinceramente até invejo toda essa forma de apresentação e vocabulário, mas simplesmente não faço por onde ^^ Eu não tenho costume nenhum de escrever e leio muito pouco, então quero deixar claro minha opinião que acho muito lindo e aprecio DEMAIS esse nível de obra consequente desses arquivos mortos das subpastas das subpastas ;D

Mesmo eu não curtindo esse estilo dark, estou ansioso pela continuação e ver como tudo vai se ligar, porque a trama está muito boa!

Olá, Grace!

Me anime muito saber que gostou, o feedback é muito importante para mim. Estou trabalhando no próximo capítulo após um hiato da escrita por motivos pessoais, mas logo a história irá voltar aos trilhos. Fique à vontade no tópico!
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Pontuação : 92

Adorei, estou esperando ansiosamente a continuação. Só um adendo, você escreve muito bem.
biggrin 

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