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WAKFU origens: uma história de Ruel

Por [Ankama]WAKFU - ADMINISTRADOR - 16 Agosto 2019 - 16:00:00
AnkaTracker Notícias

Luvas brancas imaculadas e gravata-borboleta impecável, era um Ruel completamente diferente do que conhecemos hoje que borboleteava entre as mesas do prestigioso Wakfuquet’s. Impelido por uma agilidade e, vá lá, uma graça digna de um Miaw, o “jovem” Enutrof executava seu trabalho de garçom com rigor e dignidade...

 
“Se o senhor me permite, o Melô vai muito bem com o seu pernil de Papatudette à Rosadim.”

“Para a senhora, recomendo o mil-folhas brakmariano. Ele tem notas sutis de cinzas magmáticas que vão despertar suas papilas.”

“Me permitem sugerir um mekafezinho salgado? O melhor da região. Moído com o dedinho, seguindo uma tradição ancestral transmitida de pai para filho.”

O tom era perfeito. Cordial, seguro, nem um pouco insistente. Ideal para um estabelecimento daquela qualidade. Nada levaria a crer que um sujeito como Ruel se encaixaria tão bem naquele ambiente. Entretanto, não foram nem as molduras folheadas a kamas das obras de arte nem os talheres de prata que o motivaram a se candidatar àquele emprego. Se existe uma coisa mais forte que a ganância para um Enutrof, é essa... O amor.

12h43. Em ponto. Faltava pouco. O suor das mãos dele estava começando a tornar desagradável o contato da pele com a seda das luvas. As pernas pareciam vacilar, muito fracas para sustentá-lo. De rabo de olho, Ruel viu a porta giratória se ativar. Um calafrio percorreu-lhe a coluna vertebral. De repente, ela surgiu... Os longos cabelos louros, presos em uma elegante trança, emolduravam os traços delicados do rosto. Sua vestimenta, sempre a mesma, era um macacão de trabalho azul como as águas de Sufokia que realçava os olhos magníficos. Toda vez o ritual se repetia: com um sorriso discreto, ela se dirigia pé ante pé até a cozinha para deixar o saco de gelo do dia. Não qualquer gelo. Gelo de luxo, importado diretamente de Frigost, “o único capaz de deixar o coquetel Kamakaze Azul à altura das expectativas dos clientes”, segundo o chef. Um capricho que, embora ridículo aos olhos de Ruel, tinha o mérito de lhe proporcionar aquele momento tão precioso.

Por mais que procurasse ser discreta, apagada, ela iluminava todo o recinto. Ruel só tinha uma vontade: tirar aquela maldita gravata-borboleta que lhe apertava o pescoço, atirar as luvas brancas no rosto daqueles clientes arrogantes e correr até ela para lhe oferecer uma vida de amor e água fresca (e um pouco de kamas, que ninguém é de ferro) em um lugar idílico isolado do mundo. Por que não uma ilha esquecida no meio do nada? Lá, eles poderiam passar o dia estirados na areia fina da praia, bebendo água do mesmo kokoko. Ficando com a pele dourada feito um kama e...

“Só pode ser surdo, não é possível! GARÇOM?! GARÇOM!!”

Rosto semicoberto por uma mecha branca sedosa e xale de seda azul no pescoço, Phil Harmônica, estrela em ascensão da “canção gritada”, estava sentado na mesa 1, a mais procurada do estabelecimento. Ao redor dele, várias mulheres, uma mais bonita e elegante que a outra, assumiam posturas que valorizavam exageradamente a silhueta.

Os dois Enutrofs se odiavam... O “objeto” da discórdia? A jovem e bela “menina do gelo”, que os dois cortejavam há tempos... Phil era um conquistador. Ele queria todas. Mas, acima de tudo, sentia um prazer sádico em atrapalhar Ruel. Em geral, aquela “competição” de paquera era bem-humorada. Contudo, dessa vez, Ruel não estava para brincadeiras...

“O senhor vai querer o de sempre? Uma torta da humildade?”, perguntou Ruel.

Phil mediu-o de cima a baixo com um ar de desafio.

“Claro. E, para acompanhar, seu melhor suco de uva fermentado. O mais caro. A gente está comemorando o sucesso do meu último disco. Não é, meninas?

– Hihihihihi!”

As tietes riram que nem tontas.

“Pois, se me permite, recomendo ao senhor um suquinho de maçã azedo. Sobe menos à cabeça...”

– Tanto faz, desde que você não deixe essas senhoritas esperando.” Essas palavras vieram acompanhadas de um olhar sedutor para a “assembleia”.

Em seguida ele sacou a guitarra e começou a tocar os primeiros acordes de Venha como você é, grande sucesso da famosa banda de bwork’n’roll de cabelos oleosos e jeans furado chamada Enir’Vana.

“Ham-ham... Lamento, senhor, mas não estamos em um estabelecimento de ‘comida rápida’. Para o conforto dos outros clientes, principalmente do ouvido deles, e também porque sua guitarra está desafinada, pedimos que, por gentileza, guarde o instrumento”, interveio Ruel, não sem uma pontada de êxtase.

Phil pôs a guitarra no centro da mesa e lançou-lhe um olhar tão frio quanto o conteúdo do contêiner da menina do gelo.

“Desafinada? A minha guitarra?”

O ambiente ficou tenso. As moças logo pararam de sorrir. As jovens sentadas à esquerda e à direita de Phil se afastaram, pressentindo a tempestade que se formava. Fez-se um silêncio de intermináveis segundos.

“O dó está parecendo o peido da tua avó, e o si faz o mesmo barulho que a dentadura dela quando a gente se beija”, disparou Ruel, que claramente havia deixado de lado todo o decoro.

Phil ficou vermelho feito pimentão. Ele cerrou os dentes:

“Minha avó não usa dentadura!”, gritou enquanto socava a mesa, fazendo as jovens tietes darem um pulo.

“Já o fá... Não é à toa que você vendeu SÓ 10 milhões de exemplares do seu último álbum..”

Aquilo era demais. Phil se levantou bruscamente. Ele estava bufando. Ruel, por sua vez, exibia um sorrisinho satisfeito.

“Oh, o senhor parece tenso. Não gostaria de uma infusãozinha após a refeição para relaxar?”

– Tu vai ver só o que vai relaxar!”

Phil pegou o violão, ativou o gerador de Stasis e tocou um solo de Shukrute que ressoou por toda a sala e chegou até a cozinha. O chef, o auxiliar e a “menina do gelo” saíram apavorados.

“E agora, desafinei?”

Ruel tirou as luvas brancas e, sem olhar para trás, jogou-as por cima do ombro. Em seguida, desfez o nó da gravata-borboleta, arregaçou as mangas da camisa social e tomou a guitarra de Phil.

“Tu vai ver o que é afinação, seu tocador de flautinha de plástico!”

Ruel fez as paredes tremerem com um solo igualmente poderoso e aproveitou para girar a cabeleira (compridíssima na época), como é o costume nas bandas de metal precioso.

Depois, Phil tomou a guitarra das mãos de Ruel para dar a réplica. O que se seguiu foi uma batalha de solos cada vez mais longos, cada vez mais rápidos, cada vez mais agudos. Os dois Enutrofs subiam nas mesas, às vezes saltavam de uma para a outra, agarravam-se aos lustres e até deslizavam de joelhos pelo gigantesco balcão de mármore.

Vez após vez, os Enutrofs mandavam riffs de guitarra shushutados na cara um do outro. Os melhores solos da história musical do Krosmoz foram agraciados com uma interpretação. De Pedras Musguentas a Não, passando por Pistolas e Rosas Demoníacas: ninguém foi poupado. Clientes e empregados assistiam à cena estarrecidos. Foi então que o dono do estabelecimento encerrou o espetáculo com um acesso de fúria.

“Tão me achando com cara de quê?? Bando de selvagens! Segurança! Ponha esses dois energúmenos no olho da rua! Quanto a você, Ruel, não preciso nem dizer que não tem hora extra esse mês! VOCÊ ESTÁ DEMITIDO!”

Um armário insculpido em pedra de Smagador agarrou os dois Enutrofs pelo colarinho e os jogou para fora do restaurante, fazendo-os voar até o outro lado da rua. Mesmo daquela distância, a onda de indignação que agitava o salão do restaurante chegou até eles.

Phil e Ruel se entreolharam em silêncio por um instante, depois caíram na gargalhada.

“Acaba com o penteado, né?”, comentou o segundo, ofegante, descabelado e esfarrapado.

“Fala mais alto! Seu solo de Tijolo na Mureta me deixou surdo!”

Os dois melhores inimigos se acabaram de rir.

“Tenho que admitir, a gente mandou bem...

– Aliás... Você acha que um dia a gente vai poder voltar lá para comer?”, indagou Phil, indicando o restaurante com a cabeça.

– Naquele antro de travados? Mas nunca! Prefiro morrer!, respondeu Ruel, jogando no chão o que restava de avental.

– Ha ha ha ha ha ha!

“Ei, rapazes! Que tal se a gente formasse uma banda?”

Os dois Enutrofs pararam de rir na hora e se viraram. A menina do gelo tinha tirado o uniforme, revelando um visual inesperado. Couro, meia arrastão e tatuagens: por trás da aparência tímida se escondia uma mulher badass e bwork’n’roll.

“Porque, se vocês estiverem precisando de vocalista...”

Dizem que a jovem só gravou uma música com os dois melhores inimigos. “Eles são insuportáveis”, teria declarado.

O que não impediu que, sem ela, Ruel e os Cometas, ou A Orquestra de Phil Harmônica (até hoje ninguém sabe o nome verdadeiro daquela banda de metal precioso), nunca teria nascido...

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Nossa, massinha a história..

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play do

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Muito bom

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